Contos: 1 - O Porão

      Eu acordei me sentindo tonto, com a visão turvada e embaçada. Meus olhos estavam ofuscados, como se eu tivesse olhado fixamente para o sol durante muito tempo e em seguida entrado numa sala escura. Mas tudo aquilo não me preocupou tanto quanto perceber que eu não sabia onde estava! Aquela constatação foi o pior de tudo. Ao menos eu pensei assim naquele momento, e já que nem em meu pesadelo mais hediondo eu poderia imaginar o que aconteceria depois, até aquele instante, estar perdido era o pior de tudo.

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     Desorientado, com a visão estranhamente prejudicada, abandonado e com medo, eu tentei levantar. Eu comecei a tatear ao redor procurando uma fonte de luz e qualquer coisa que me fornecesse alguma informação sobre o lugar onde estava, mas tão logo me levantei, senti minha mente ser atacada por lembranças de tudo que acontecera na noite – que eu acreditava ser – anterior àquela em que acordei naquele maldito buraco escuro. Imagens fragmentadas e desordenadas me vieram à mente, e tudo parecia muito recente, mas eu não sabia exatamente quanto tempo estivera desacordado. A primeira lembrança que tive foi dos olhos, com íris alaranjadas e brilhantes, de Sofia, e de sua voz calma e penetrante. Em seguida lembrei-me de um grito agudo e selvagem que precedeu um momento de tórrido e puro deleite. Aquelas lembranças todas surgiram repletas de uma estranha mistura de angústia e pavor que eu só sentira na voz de Sofia, quando ela dissera: “Não tenha medo meu querido e inocente mortal. Logo a vida fluirá outra vez e você renascerá para um mundo novo, mais fantástico, e mais rico em possibilidades”. Após aquelas palavras – eu começava a recordar – uma dor indescritível percorrera meu corpo tomando cada um de meus nervos. Eu sentira minha pele inteira arder e meus músculos serem consumidos como se o fogo do inferno os queimasse. Mas estranhamente eu também me sentira mais vivo, apesar de tudo. Fora como se a dor me fizesse tomar consciência de cada fio de cabelo em meu corpo, de cada batida de meu coração. E eu pudera sentir, e até mesmo ouvir, meu próprio sangue correndo em minhas veias como a água de um rio caudaloso e selvagem, desesperado para alcançar o oceano. Então, antes que eu pudesse perceber, quando já era tarde para voltar atrás, tudo se consumara. A partir daquelas lembranças eu logo imaginei o que acontecera: fora lá o que Sofia houvera feito comigo me causara um desmaio, e então eu fora levado, de alguma maneira, para o lugar onde me encontrava naquele momento. Infelizmente eu não me lembrava de mais nada.
     Quando finalmente eu consegui colocar-me em pé, percebi que o local onde estava era enfumaçado e preenchido por uma densa nuvem de poeira. Além disso, cheirava a mofo e urina. No primeiro instante tive a impressão de estar num pesadelo, e até desejei isso, pois tudo terminaria mais rápido; eu só teria que abrir os olhos. Mas aquela poeira e aquele cheiro nauseante faziam meus olhos arderem de uma maneira muito real. E minhas últimas recordações ecoavam em minha cabeça dizendo: “Não é um sonho! Não é mesmo um sonho Jack. E você está ferrado!”. Após alguns minutos tentando avaliar minha situação naquela sala escura, conjecturando sobre o que teria ocorrido, eu passei a enxergar melhor, e pude perceber que a sala onde estava guardava alguns móveis grosseiros e uma pilha de entulhos. Imaginei que deveria ser um tipo de depósito. A minha esquerda havia algumas prateleiras ao longo de toda a parede, e uma grande mesa em frente a elas, bastante grosseira, feita de tábuas irregulares presas por grandes pregos e apoiada sobre dois cavaletes. Vasculhando com mais cuidado o lugar, contando mais com o tato do que com a visão, encontrei algumas ferramentas embaixo da mesa, que pareciam ter sido usadas recentemente. Havia pás e enxadas ainda com um pouco de terra úmida em suas lâminas irregulares e dentadas, gastas pelo uso. Também encontrei alguns caixotes do outro lado da sala, com garrafas cheias com algum tipo de bebida, fechadas com rolhas. E sobre os caixotes repousavam alguns blocos de pedra – três, para ser exato – lisos e regulares, com aproximadamente meio metro de largura e um metro de altura, e com os cantos de um dos lados levemente arredondados. Eu estava prestes a abrir uma das garrafas que encontrei, esperando que elas contivessem vinho ou, com sorte, algo mais forte, que pudesse me fazer relaxar para pensar numa maneira de sair daquele lugar, quando minha pequena exploração do local foi interrompida por um calafrio que se apossou de meu corpo no instante que me lembrei de Andreia. E a primeira coisa que me veio à mente foi a pergunta: O que havia acontecido com ela?
     Naquele momento perdi completamente o controle; fui tomado por uma raiva súbita que me fez correr para todos os lados me debatendo contra as paredes, procurando desesperadamente uma saída daquele lugar. Quando já havia quase esgotado minhas forças, e me encontrava encolhido num canto, chorando, desesperado, uma tênue e amarelada luz surgiu atrás de algumas caixas e pilhas de papéis que repousavam no alto das prateleiras. Corri, então, na direção da claridade. Retirei os entulhos empoeirados, cheios de teias de aranhas, que abarrotavam o lugar, e uma pequena janela revelou-se no alto da parede, quase junto ao teto, aproximadamente a dois metros do chão. A abertura era retangular e pequena, com menos de meio metro quadrado, estava selada por um vidro sujo e possuía grossas barras de ferro que obstruíam a passagem. A luz que surgiu de repente, e que atravessava o vidro da pequena janela, me fez perceber que eu estava numa espécie de porão. A pequena abertura revelada, por onde passava a luz, ficava próxima ao chão no lado exterior. Pude ver a grama seca de um pequeno jardim que se estendia da janela onde eu estava, até a porta de um casebre no qual, em frente, havia um carro, parado, mas com os faróis e o motor ligados. E fora a luz dos faróis que iluminara meu cárcere. Pensei imediatamente em fugir, mas as grades da pequena janela eram muito fortes. Apesar de estarem enferrujadas, eram grossas, com quase duas polegadas. Eu não conseguia pensar direito. O lugar era quente e cheirava mal. Então decidi procurar uma saída novamente, aproveitando a fonte de luz que surgira.
     Do outro lado da sala, na parede oposta à janela, aquele odor de urina e mofo estava mais forte. Era um cheiro horrível! Com certeza aquele lugar não recebia a luz do sol há séculos e o mofo e o bolor tinham ali as condições perfeitas para se proliferar. Logo que me aproximei da parede oposta à janela, de onde parecia surgir o mau-cheiro, eu avistei o início de uma escada, oculta por várias caixas e por uma pilha de entulhos que ocupavam todo o chão da sala naquele lado. Eu só pensava em sair daquele porão e descobrir o que acontecera com Andreia. Eu não sabia onde estava nem como havia ido parar ali. E apesar do casebre ser uma dessas casas que costumamos ver apenas em filmes de terror, em lugares remotos, afastados da civilização, um lugar onde eu não procuraria socorro, o carro que estava em frente a ela poderia ser muito útil. Eu poderia pedir uma carona ou qualquer ajuda para escapar daquela situação que possuía todos os ingredientes para se tornar uma tragédia na qual eu era uma das vítimas; ou o que talvez fosse pior: a única!
     Aproveitando a parca luminosidade que entrava na sala pela pequena janela, eu decidi remover as caixas que obstruíam a escada que encontrara; e ao lançar-me ao trabalho percebi algo se movendo ao meu lado, embaixo de um das caixas. Eu, então, me afastei devagar e procurei por algo em meio aos entulhos para usar como arma. Tomado pelo medo da situação tive milhares de pensamentos invadindo minha cabeça: eu me lembrei de Andreia e do fato de não saber o que acontecera com ela, pensei no carro parado em frente à casa, lembrei novamente de Sofia e de seu olhar sobrenatural e preparei-me para o pior. Se eu fosse morrer seria lutando. E enquanto tomava minha resolução o barulho sob a caixa aumentou. Em seguida uma delas começou a balançar lentamente como se aquilo que se escondia embaixo dela estivesse se erguendo calmamente e então... Um rato correu por entre meus pés. Aquela revelação, primeiro, me deixou aliviado, mas ao olhar mais atentamente para o roedor o medo voltou, e ainda mais forte. O animal tinha o tamanho de um gambá. Seus olhos eram vermelhos e vibrantes, parecendo dois bulbos cheios de sangue. E mais horrível que seu porte anormal: a criatura arrastava alguma coisa presa em sua boca. Para minha surpresa e desespero era um pé humano parcialmente devorado. Após presenciar aquela cena grotesca e devastadora, voltei rapidamente a retirar as pesadas caixas que bloqueavam o início da escada, daquela vez motivado pelo horror e usando uma das pás que encontrara, para não correr o risco de ser mordido por um rato gigante. Tive medo até mesmo que houvesse mais deles e que pudessem ser agressivos. Três ou quatro daqueles animais, se enfurecidos, poderiam facilmente devorar um membro de um homem antes deste poder reagir.
     À medida que eu retirava as caixas que escondiam o início daquela escada, que era minha única saída daquele pesadelo, o cheiro de mofo e urina ficava mais intenso e àquele odor nauseante juntou-se outro: um cheiro de carne queimada e em decomposição. Então, após remover as últimas caixas, liberando a passagem para a escada, algo ainda mais assustador que um rato descomunal carregando parte de um corpo humano se revelou: um cadáver; coberto por vermes e baratas. Logo que eu fitei aquele corpo inchado e apodrecido jogado em frente à escada, arrastei-me para trás assustado e desorientado com o mau-cheiro e com o horror daquela presença. O cheiro era horrível! E os inúmeros vermes entravam e saiam pela boca do morto. Eu não suportava mais aquele maldito lugar, que já era insuportável antes de eu descobrir um corpo em decomposição jogado em meio ao entulho. E naquele instante, caído de joelhos, com pensamentos sobre a morte me atormentando, com minha vontade sendo esmagada pelo medo, pensei que um dia aquele homem morto poderia ter estado na mesma situação que eu me encontrava. Aquela ideia me fez perder as últimas forças. O desespero tornou-se maior que minha esperança de sair daquele porão, que se tornara meu cárcere.
     Ainda prostrado, com as mãos apoiadas no chão frio, úmido e coberto de limo, chorei pensando em Andreia, no quanto eu fora egoísta e irresponsável com ela, e amaldiçoei o dia no qual conheci Sofia. Mas de repente, um som de passos vindo do alto da escada me fez voltar à realidade, à triste e cruel realidade que estava vivenciando. Por alguns instantes ainda permaneci imóvel, tentado imaginar o que se aproximava. Logo o som pareceu dissipar-se e eu levantei. Gelado e trêmulo eu me dirigi lentamente até a escada. Tentei não olhar para o cadáver, mas uma mórbida curiosidade não me permitiu conseguir. O corpo parecia ser de um homem de aproximadamente trinta anos. Estava com as roupas parcialmente queimadas, assim como parte do pescoço e do peito. E o que um dia fora seu rosto tinha a pele ressecada e colada ao osso como se todo o sangue e líquido tivessem sido sugados de sua carcaça. Vendo aquele pobre morto respirei fundo e decidi que eu não teria o mesmo destino. Busquei coragem na lembrança de Andréia e dei um passo, pisando no primeiro degrau da escada, assim pude ver que no alto desta havia uma porta estreita que se insinuava com um contorno brilhante gerado por uma luz fraca e avermelhada que vinha do outro lado da passagem que a porta guardava. Quando me preparei, para continuar a subida, a pequena porta abriu-se lentamente, e suas dobradiças rangeram produzindo um gemido agudo e fantasmagórico à medida que permitia àquela débil luminosidade inundar os degraus mais altos da escada. Eu, então, voltei para o interior do porão com cuidado, procurando um lugar para me esconder. Enquanto me afastava lentamente do início da escada, alguém atravessou a porta no alto dela, projetando uma enorme sombra nos frágeis degraus empoeirados de madeira. Quando já me encontrava abaixado atrás dos caixotes colocados no fundo do porão, com a pá que usei para remover os entulhos da escada em punho, pude ver três vultos descendo a escada. A julgar pelo som severo e determinado, que seus passos produziram nas velhas tábuas, que formavam os degraus do que deveria ser meu caminho para fora daquele lugar, eles sabiam muito bem o que havia naquele porão. Deveriam ser, portanto, meus raptores. Pouco antes de uma daquelas pessoas gritar eu ainda pude perceber a silhueta de cada um, e no momento me pareceu que duas delas eram mulheres. Então, confirmando minha suposição, uma voz feminina ecoou pelo porão, dizendo: “Pronto para uma nova vida Jack?”. Eu pensei em responder, mas não consegui me mexer. A voz calma e suave da mulher me soou familiar; estranha e terrivelmente familiar! Após aquela pergunta os três aguardaram alguns instantes, alimentando por alguns segundos uma sádica expectativa. Mas eu não respondi. Quase nem respirava naquele momento. Então, uma segunda voz, mais grave, certamente de um homem, gritando, disse: “VAMOS JACK. EU QUERO MATÁ-LO LOGO!”. E em seguida soltou uma gargalhada mórbida que inundou meus ouvidos de sarcasmo. Ouvindo aquilo levantei de sobressalto e, banhado pelo medo e pelo terror, fitei o cadáver em decomposição sob a escada, logo abaixo dos três desconhecidos, enquanto corria na direção deles usando a pá que possuía como arma e pensando: “Eu não vou acabar assim sem antes levar ao menos um desses desgraçados comigo”.
     Quando cheguei ao alcance da luz e me preparei para desferir um golpe na mulher que estava à frente dos outros, fui tomado por uma intensa e aguda dor no estômago. Meu corpo pareceu ser dilacerado repetidas vezes. Meus olhos pareceram sugar cada pequeno feixe de luz que havia no lugar e pude ver, com uma nitidez fantástica, até mesmo os pontos mais escuros do ambiente. Minhas veias e artérias latejavam e ardiam, como se meu sangue fervesse em seu interior tal qual a lava nos canais de um vulcão a ponto de explodir. Meus pensamentos iam e vinham como se eu estivesse sob o efeito de anfetaminas ou outro estimulante qualquer. E antes mesmo de atacar a maldita mulher com olhos alaranjados ainda puder ver, no fim da escada, atrás de um homem magro, pálido e esquelético, o rosto de Andreia, sorrindo docemente com uma calma assustadora. Em seguida tudo ficou vermelho. Um vermelho intenso e vibrante que me dominou por completo. A imagem de Andreia tornou-se desfigurada e distante, e se desfez como uma miragem se desfaz no deserto quando nos aproximamos demais.
     Hoje eu lembro vagamente do que aconteceu nos últimos momentos que estive naquele porão. Então não posso dizer ao certo o que aconteceu; nem como. Mas recordo do homem possuir unhas grandes e resistentes como garras. A maldita mulher de olhos sobrenaturais estava com os lábios e o queixo sujos, umedecidos por algum líquido viscoso e quente. Mas só me lembro, com certeza, é de ter lutado contra eles com todas as forças e de ter visto, em meio à loucura, ao medo e à fúria, o rosto de Andreia uma última vez, antes de perdê-la para sempre. E esta perda é o que mais lamento. Mas cada um faz suas próprias escolhas. Ninguém deve julgar isso. Só não devemos impor nossas escolhas aos outros. Eu nunca impus as minhas à Andreia. Desejava que ela não tivesse feito o contrário.

Um comentário:

  1. Ótimo conto J.
    Dei uma formatada pra ficar de acordo com as outras postagens do blog.
    Espero q não se importe.
    E já estou aguardando o próximo conto.
    Abraço.

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