Contos: Apenas uma bala...

Hoje esta uma noite clara não é mesmo? Até me faz lembrar de coisas passadas que faria você gelar este corpo moribundo que já não esquenta a muito tempo. Você pode até não acreditar, mas aconteceu e só eu posso te contar, afinal, só eu saí vivo daquele inferno. 

Éramos cinco, o Brujah aqui; um Tremere chamado Damien, muito ponposo, alguns até diziam que ele era gay mas, sei lá, não ando com esse tipo de gente, meu negócio é mulher; um Nosferatu muito meu amigo que já me livrou de muita enrascada da grossa chamado Stratovarius, não que ele fosse muito fã daquela banda, mas curtia um som maneiro; um Gangrel meio (ou "inteiro"?) selvagem e de poucos amigos chamado Dante; nosso colega Ventrue, Richard Von Dorf, apesar de ser um Sangue Azul, era um cara gente fina e meu finado colega, parceiro de bilhar e pôquer, o Ravnos Mark "The Joker".

Uma certa noite, fomos contatados pelo Príncipe de Astória (localizada no norte dos EUA, perto da fronteira com o Canadá, onde foi rodado aquele filme "Os Gonnies", tá lembrado?) para localizar o possível refúgio de um bando de caitiffs e nos deu carta branca para fazermos o que bem entendermos com aquele bando de lixo. Partimos na calada da noite em direção as colinas onde se localizava a antiga e abandonada mansão. Eu e Mark fomos em nossas motos, já o almofadinha foi em seu coupê esportivo. O bruxo tinha um bom coração, aliás, nunca experimentei, mas diziam que seu sangue era de um fino sabor europeu, paródias à parte. Ele levou consigo o selvagem e o rato de esgoto em seu carro.

A mansão ficava numa colina quase inascessível e eu até me perguntava: "Como construíram aquele monstro lá em cima?". As motos foram beleza, já o esportivo do Ventrue ficou lá embaixo mesmo. Chegamos a frente da mansão e logo de cara vimos que ali já havia ocorrido algo e não fazia muito tempo. Tinha sangue nos ladrilhos de pedra em frente ao casarão, e ele ainda estava fresco. Nos indagamos quanto a isso, pois achávamos que havia mais alguém ali além dos renegados. Adentramos então pela varanda, Dante disse sentir cheiros que o preocupavam, mas ainda não tinha certeza completa do que era. Eu, muito prevenido, saquei minhas Blackhawk e fiquei de prontidão enquanto Mark abria sorrateiramente a porta. O interior da mansão faria qualquer sanguessuga descontrolado entrar em frenesi e libertar a besta. O saguão principal era um pouco menor que uma pequena quadra de esportes, e além do que vimos, o que mais chamava atenção era um monstruoso lustre que, até certa data iluminava o local. Ele parecia pesar toneladas. Já assistiu fome animal? Não. Então assista, e perceberá o que estou dizendo. As paredes estavam cobertas de sangue, restos de corpos (no nosso caso, cinzas) estavam espalhados pelo saguão em partes desiguais e pequenas, o que sugeria morte por esquartejamento. Damien saiu da casa em direção ao seu carro para preparar um pequeno ritual, não entendo muito bem essas macumbas dos tremeres mas, por experiência próprias, posso comprovar que elas dão muito certo. Eu e Mark ficamos investigando o térreo, enquanto Dante, Stratovarius e Von Dorf subiram para os andares superiores. Aí a coisa começou a ficar preta.

O primeiro a cair foi o Nosferatu, escutamos apenas um gemido estridente, que faria você arrepiar até a espinha. Não chegamos a ver suas cinzas ou como ele foi morto e também não deu tempo pra perguntar se o almofadinha tinha visto a cena, pois logo depois disso, voltamos ao saguão apenas para escutar alguns tiros e, subitamente, vimos o corpo do Ventrue sendo jogado do alto das escadarias rumo ao chão, esfacelando-se no ar como se fosse poeira ao vento. Eu fiquei e mandei Mark ir chamar Damien, apenas para ele descobrir que o Bruxo também já era. Foi aí que avistei a coisa, lá no alto, trocando tapa com o Gangrel, com suas garras afiadas. Aquilo era um lobisomen, e não me pergunte a tribo pois eu nada sei desses animais, além de ele gritar que éramos filhos da Vilma, ou era Wyrm. Subi correndo a escadaria e, quando Dante acertou o pescoço do bicho, eu descarreguei a "esquerda" na nuca do bicho, que apenas se virou e rasgou meu peito com um chute potente. Rolei as escadas abaixo até o térreo a constatei que não conseguia mexer o braço esquerdo e só tinha uma bala na "direita". A morte de Mark foi mais radical, sem remorso. O bichão o ergueu no ar e como uma sessão de SuperCath, quebrou a espinha de Mark, em alto estilo Bane vs. Batman.

Dante saltou do último dos três andares até o térreo enquanto eu me arrastava até o pé das escadas tentando me recompor quando o lupino passou por mim na investida final contra Dante que, ao meu ver, deveria ter ficado em casa aquela noite. O lobo mau decepou sua cabeça com as garras e depois, antes do tempo requisitar a posse do corpo enfermo do Gangrel, o lobão se virou e, olhando pra mim, esmagou o crânio de Dante que se esfacelava em pó. Depois disso, ele não disse nada, estávamos a uns cinco metros de distância e babando o sangue das vítimas, ele veio bem devagar em minha direção. Pensei ter chegado a minha hora, e com apenas uma bala e ela nem sequer era de prata, me preparei para a Morte Final. Olhei para o alto e a luz do luar refletiu no gigantesco lustre como uma idéia que batia em minha cabeça. Apontei a BlackHawk para a corrente que o segurava e, com um tiro certeiro, ela se partiu e despencou sobre o corpo musculoso e forte do lupino, que nada pode fazer além de uivar sobre os escombros que o esmagou. "Hasta la vista baby!" foi a única coisa que me veio em mente, seguido de uma gargalhada que ecoou pelos saguões vazios da mansão. Sei que você pode até não acreditar, mas essas coisas acontecem, ou você nunca jogou uma partida de RPG?

Billy Tocera, verão de 1982, num bar em algum lugar do Novo México.

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