Contos: 8 - A Velha Igreja

     Há pouco mais de seis anos eu investiguei um caso de assassinato neste pequeno vilarejo. Coincidência ou não, eu me envolvi naquele caso na mesma época em que meu interesse por ocultismo, magia negra, demonologia e tudo mais que diz respeito a essas forças incompreendidas do universo, começara. Para minha surpresa, na época os moradores deste lugar acreditavam que uma série de mortes, ocorridas nesta igreja abandonada, estava ligada à aparição de alguma espécie de criatura sobrenatural. Imaginei, então, que seria o caso perfeito para me aproximar das sombras que se ocultam sob o véu da realidade corrompida que acreditamos ser a única verdade. Ou descobriria que tudo não passava de superstição e delírio de gente ignorante e interiorana. Foi por isso que aceitei o caso do velho Weeman. E isso é o que nos traz a este momento. Antes de continuar meu trabalho com você vou lhe contar a história de minha investigação.

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     Quando visitei esta pequena vila era verão. Eu cheguei ao final de uma tarde quente e pude avistar, sob um espetáculo de luzes em tons alaranjados, de um crepúsculo insistente, no alto da pequena colina de Thotep, esta velha edificação onde nos encontramos agora. Após me hospedar na pequena estalagem local e me encontrar com Weeman, vaguei um pouco pelas vielas imundas do vilarejo e logo descobri que esta imponente e dilapidada construção, há muitos séculos, fora usada como igreja. O prédio acabara sendo abandonado em decorrência da misteriosa morte de seu último padre, o velho Carocho, como o chamavam. Devo dizer que naquele tempo ela já tinha este aspecto assustador – assustador demais para um templo – porém, também muito majestoso para uma igreja com tão poucos paroquianos. E como eu suspeitava ninguém costumava visitar este local desde a morte do padre, o que contribuía, obviamente, para o desenvolvimento das lendas macabras e superstições da população. Assim que ouvi alguns relatos sobre a velha igreja, tendo conversado com os mais respeitados moradores de Nyarla, decidi dar uma olhada nos arredores deste templo, apesar da hora já avançada em que terminei minhas entrevistas.
     A antiga construção abandonada tinha todas as janelas trancadas por grossas e resistentes tábuas pregadas por dentro e por fora das aberturas. E eu soube, pelos moradores, que aquelas providências haviam sido tomadas na ocasião da morte do padre. Mas apesar de aquelas tábuas estarem aqui desde aquela época, elas se mantêm perfeitamente conservadas, como você mesmo pôde ver. Somente a porta principal estava aberta, como você sabe também. Eu pude perceber, naquele momento, que alguém havia arrombado o lugar e conclui que fora a última vítima, o irmão do dono da única estalagem de Nyarla, o velho Weeman, que conhecera meu pai durante a infância, quando ambos estudavam na capital. Tornaram-se bons amigos até que, infelizmente, o Sr Weeman necessitou retornar para a vila de Nyarla, quando da morte de seu pai, e teve uma vida miserável por conta disso. Mas ele era um pouco diferente dos demais moradores e por isso me contratara. Acreditava que seu irmão havia sido morto. E sabia que as autoridades do lugar não estavam interessadas em ajudar, ou talvez pior: poderiam estar envolvidas. O seu irmão, Stephen, era conhecido por suas confusões, brigas e beberagens. De acordo com os moradores, o corpo de Stephen fora encontrado em frente à porta da velha igreja, com o rosto deformado, e suas pernas, amputadas, estavam no interior da sala principal, a seis metros de sua carcaça. Eu descartei a hipótese de um crime cometido por outro morador, pois, o que ocorrera com o pobre homem não poderia ter sido causado por sua impertinência apenas.
     Você, na posição em que se encontra, pode achar estranho, mas eu decidi, naquela noite, acampar no interior deste prédio, motivado pelos comentários dos moradores, segundo os quais, as criaturas, suspeitas da morte de Stephen, apareciam com mais frequência durante a noite. Então, passei pela ampla porta da velha igreja e comecei a examinar o lugar. Naquele momento tudo estava bastante calmo e o interior da construção pareceu menos assustador do que eu esperara. Na sala principal, na parede oposta à porta de entrada, descansava um pequeno altar coberto por algum tipo de hieróglifo. Todo o altar estava coberto por trapos empoeirados que pareciam ter sido vermelhos um dia. À esquerda do altar ficava um pequeno corredor escuro com o piso de chão batido. Pelo chão havia pilhas de entulhos e lixo, espalhados por todo lado, que pareciam ser os restos dos bancos e vitrais da igreja. As paredes desgastadas tinham um tom cinzento e esverdeado conferido pelo musgo e pelo mofo que cobriam o lugar do piso ao teto e tornavam o ar do salão sepulcral e sufocante. Além disso, as janelas lacradas deixavam o interior da sala malcheiroso, úmido e quente. Como você viu, as coisas estão um pouco diferentes agora.
     Após alguns minutos examinando a sala principal da velha igreja, a noite já avançara completamente, então ascendi uma fogueira com as madeiras velhas que estavam por toda a parte, para economizar a bateria da lanterna. Enquanto eu comia um sanduíche e tentava reproduzir em minhas anotações os estranhos símbolos que vi no altar, nada suspeito aconteceu. Terminando de copiar as escrituras que encontrei decidi vasculhar o restante da construção e então segui pelo estreito corredor que se aprofundava para o interior do templo. Naquele momento eu começava a convencer-me que os estranhos relatos sobre demônios, feitos pelos moradores da vila, não passavam de uma invenção que tinha como intuito amenizar a dor da terrível tragédia que vitimou Stephen. Mas apesar de me sentir um pouco decepcionado, crendo que não iria encontrar nada sobrenatural, eu tinha um caso para resolver, afinal, o irmão de Weeman estava mesmo morto; e as circunstâncias em que o corpo fora encontrado exigiam meu máximo esforço na investigação.
     Segui, então, pelo estreito corredor com minha pequena lanterna. O teto, naquela passagem, era baixo, com dois metros no máximo. As paredes estavam cobertas por teias de aranha cheias de insetos presos a elas. Tantos que os grandes blocos de pedra antiga, que formavam o corredor, permaneciam quase totalmente escondidos. A passagem era bastante longa e parecia ser mais velha que a sala principal da edificação. Ao final do estreito caminho havia uma escada de pedra, que descia fazendo uma pequena curva à esquerda. A cerca de dois metros antes do início da escada havia duas portas, uma de cada lado do corredor. Eram portas altas feitas com tábuas largas de madeira unidas por chapas de ferro atravessadas de lado a lado. Não possuíam fechadura e no lugar das maçanetas, apenas argolas de ferro. Eu me aproximei com cuidado da escada, cruzando toda a extensão do corredor e antes que iluminasse os primeiros degraus que precediam a descida, uma grande sombra fantasmagórica surgiu diante de mim. Era uma criatura feita de uma espécie de névoa negra e esvoaçante, semelhante a um espectro feito de vapores e escuridão, e ela pairava ameaçadoramente diante de mim, como um fantasma. Imediatamente levei a mão em minha pistola, mas a criatura pareceu incomodada com a luz e desferiu um golpe em minha mão que me fez derrubar a lanterna. Ouvi o som de vidro e metal contra pedra e tudo escureceu. Minha última visão foi do que pareceu ser a mão daquele monstro com quatro dedos longos e esqueléticos terminados em unhas negras e pontiagudas que pareciam se dissipar como fumaça à medida que se aproximavam de minha garganta. Então saquei minha arma e disparei duas vezes, aproveitando os clarões dos tiros para voltar até uma das portas que ficavam logo atrás de mim. Ao abrir uma delas me joguei para dentro da sala que a porta guardava, batendo os joelhos em alguma coisa. Com a pancada eu cai e acabei perdendo minha arma. Em seguida, virei de costas para o chão e empurrei a porta com os pés tentando mantê-la trancada. Respirei fundo e tateei ao meu redor tentando encontrar a pistola. A criatura que encontrei não pareceu sofrer nenhum dano com os disparos que fiz, mas me confortava a ideia de manter uma arma em punho, caso ela invadisse a sala onde entrei. Mas antes que tivesse a chance de encontrar a pistola percebi dois pontos de luz no alto do local onde estava. Eram como duas estrelas distantes com um brilho esverdeado e que parecia desfazer-se em um tipo de névoa espectral. Com aquela claridade fraca pude ver que me encontrava numa sala pequena, de quatro metros quadrados, aproximadamente, repleta de esqueletos humanos pendurados nas paredes por grilhões enferrujados. Ao meu lado jazia um baú de madeira tão velho que possuía buracos na tampa por onde pude ver o que pareciam livros enormes, com capas de couro arruinadas pelo apetite de traças. E na porta diante de mim, entalhado em uma placa de metal havia inscrições em latim. Naquele instante, cercado por esqueletos, encurralado em um antigo templo e ameaçado por um monstro sobrenatural, não faria mal perder alguns segundos com aquela mensagem. Então eu li, na placa de metal, a seguinte mensagem, de acordo com meu péssimo conhecimento de latim: “As forças do caos e da crueldade prevalecerão. Ninguém pode resistir ao castigo que profanará a vida. O fogo infernal deteriorando seu corpo livrará o escolhido da fraqueza e da finitude da carne. A dor purificará sua alma e a morte virá, como um alívio”.
     Terminando de ler a mensagem daquelas palavras, só pude pensar numa maneira de sair daquele lugar. Mas antes que eu pudesse me levantar os dois pontos brilhantes ficaram mais vivos e a luz emanada por eles brilhou com mais intensidade. Então percebi o que eram aquelas fontes de luz: os olhos da criatura que eu encontrara; e ela atravessou a porta como um espectro incorpóreo, vindo em minha direção como se flutuasse sobre o chão e estendendo suas garras até meu pescoço. Eu não conseguia compreender o que estava acontecendo, minha mente e meus músculos ficaram paralisados diante daquela visão irreal e macabra. Aquele monstro era a visão clássica da morte exceto pelo gadanho, e eu cheguei a acreditar que ela havia vindo me buscar. Então seus dedos longos e esguios começaram a me estrangular e logo eu perdi a consciência.
     Não sei exatamente quanto tempo, após sofrer o ataque daquele fantasma negro, se passou. Eu acordei acorrentado sobre uma mesa, e ao meu lado esquerdo eu pude ver uma pequena bancada, com vários instrumentos sujos e enferrujados dispostos sobre ela. Havia pequenas adagas, ganchos utilizados em matadouros, machadinhas, estacas de madeira. A minha direita estava a criatura que havia me estrangulado, e ela proferia palavras estranhas em um idioma incompreensível. Em frente a meus pés havia uma grande fornalha ardendo em chamas e eu sentia a sola dos meus pés esquentando cada vez mais. Nas brasas estavam postas hastes de metal pontiagudas e lâminas já incandescentes. Eu tentei falar com aquela criatura, mas foi em vão. Tudo que ela fez, após terminar seu cântico, foi tomar uma das hastes de metal, já avermelha pelo fogo, do interior da fornalha, aproximá-la do meu rosto e enfiá-la em meu olho esquerdo, sem hesitação. Eu gritei como nunca acreditei que seria possível alguém gritar. E confesso que chorei, urinei em mim mesmo e quase me afoguei em meu próprio vômito, com aquele golpe e com tudo que se seguiu. Quando enfim, eu estava à beira da morte, o espectro aproximou-se e eu ouvi, como se uma voz estivesse dentro de minha cabeça, o seguinte: “A dor purificará sua alma. Seu corpo físico, sua carne, é frágil e inútil. Mas o sofrimento acabará se escolher tornar-se um de nós”. Então, a criatura contou-me uma história muito semelhante a esta que acabo de contar a você, e foi neste momento que o pior começou, porque eu hesitei em fazer a escolha. Eu pude entender, que a criatura fora, um dia, quando mortal, o irmão do velho Weeman, cuja morte eu investigava. Com tudo que passei, dor e desespero são palavras que ganharam novos significados para mim. E a partir de agora você entenderá o que quero dizer. Especialmente se hesitar em fazer a escolha.
     A dor purificará sua alma. Seu corpo físico, sua carne, é frágil e inútil. Mas o sofrimento acabará se escolher tornar-se um de nós...

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